Poema da Eternidade sem Vísceras

Na última lua eu odiava as montanhas
minha memória quebrada não pode receber

o amor

eu tomava sopa aguardando meus amigos desordeiros

no outro lado da noite

este é o meu estranho emprego este mês

outro tempo quando o velho Gide se despachava para a África

meu coração era sólido eu dançava

eu assistia uma guerra de chapéus e as brancas

lacerações dos garotos no Ibirapuera angélico

terreno vazio onde eu mastigava tabletes de

chocolate branco

no próximo instante eu vi árvores e aeroplanos com bigodes

e lágrimas de Ouro

no Ibirapuera esta noite eu perdi minha solidão

ROBERTO PIVA TRANSFERIDO PARA REPARO DE VÍSCERAS

todos os meus sonhos são reais oh milagres epifanias

do crânio e do amor sem salvação que eu sabia presos

no topo da minha alma

meu esqueleto brilhava na escuridão

repleto de drogas

eu nunca estou satisfeito e ando um incorrigível demônio

lunático com os dez dedos ruídos tamborilando num campo

magnético

memória do arsênio que eu dei a uma pomba

os olhos cinzentos do céu meu culto Totem espiritual



Roberto Piva

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